Governo recruta gestores no privado
Duas empresas de “executive search” estão a entrevistar quadros com vista à
seleção dos futuros gestores dos quatro programas operacionais (PO) temáticos,
que vão distribuir quase 12 mil milhões de euros dos fundos europeus para o
período 2014-2020. É uma “inovação”, uma “rutura” com a “forma tradicional de
trabalhar da Administração Pública”, assume o secretário de Estado do
Desenvolvimento Regional, Castro Almeida.
Ao que o Expresso apurou. pelo menos desde o final de agosto, a Heidrick
& Struggles e a Boyden entrevistaram pessoas, sobretudo com carreira no
sector privado e sem ligações ao funcionalismo público. Nas conversas, os
elementos das empresas deixaram perceber que especificidades adquiridas no
sector privado seriam particularmente valorizadas na apreciação. Este perfil
contrasta com o currículo dos anteriores gestores dos PO temáticos, escolhidos
entre altos quadros do funcionalismo público (embora possam também ter passado
pelo privado).
As empresas encarregadas do recrutamento “valorizaram muito uma valência de
gestão financeira”, disse ao Expresso José Santos Soeiro, o presidente da
Agência para o Desenvolvimento e Coesão (ADC), criada pelo Governo para
coordenar as políticas cofinanciadas pelos fundos europeus - e entidade que
contratou diretamente a Heidrick & Struggles e a Boyden. A primeira
pertence ao grupo Ongoing. A segunda é a multinacional de recursos humanos para
a qual entrou em março o ex-presidente da Cãmara do Porto Rui Rio.
O Executivo esclarece que foram entrevistados quadros do privado e da
Administração Pública. Castro Almeida defende o novo
modus operandi:
“É preciso ter gente de altíssima qualidade. São eles que vão decidir sobre
milhares de milhões de euros. Quisemos procurar os melhores, mesmo gente que
está bem e com emprego. E para isso estamos a fazer uma aproximação aos métodos
seguidos pelas empresas privadas, que contratam as
head-hunters que
lhes podem indicar os quadros com o melhor perfil”.
“Profissionalizar a escolha”
Para o secretário de Estado, “até agora o método tradicional de seleção tem
sido a livre escolha. Ora, nós quisemos profissionalizar essa escolha”.
Trata-se de “um passo em frente” e de “uma mudança virtuosa”, afirma. E de
certa forma antecipando-se à critica, deixa cair que “tudo o que é inovador causa
perturbação e descontentamentos”.
Nunes Correia, ministro do Ambiente, do Ordenamento do Território e do
Desenvolvimento Regional do Governo de José Scrates - e responsável no
Executivo pela coordenação da aplicação do anterior quadro comunitário (2007-2013)
-, diz que esta prática demonstra a “hostilidade e a falta de respeito do atual
Governo com tudo o que cheire a Administração Pública”. O ex-ministro diz que,
no passado, “tendo em conta a natureza da tarefa, o conhecimentos dos fundos
comunitários e da máquina do Estado era um requisito fundamental na escolha do
gestor”. A identificação dos candidatos era feita a partir dos ministérios e
nos organismos do Estado, nunca tendo havido o recurso a qualquer entidade
externa para fazer o recrutamento, garante.
Segundo Fernando Neves de Almeida,
managing partner da Boyden, o
perfil dos entrevistados foi “definido” pela sua empresa, “com base no que irá
ser a função das pessoas em questão”. A Heidrick & Struggles não deu
qualquer resposta.
A totalidade dos chamados FEEI (fundos europeus estruturais e de
investimento), sigla atual para os dinheiros oriundos de Bruxelas e destinados
a Portugal até 2020, ascende a €25,6 mil milhões. Desse bolo, os PO temáticos,
os confiados a gestores em processo de recrutamento, são uma camada
significativa (quase €12 mil milhões), dividida em quatro fatias: PO
competitividade e internacionalização, €4,4 mil milhões; PO inclusão social e
emprego, €2,1 mil milhões; PO capital humano, €3,095 mil milhões; e PO
eficiência de recursos e sustentabilidade, €2,2 mil milhões). Cada PO terá uma
comissão diretiva, chefiada por um presidente ou gestor.
Cada empresa, segundo o presidente da ADC, entregou cinco perfis para cada
gestor (20 pessoas no total). Entre as listas da Boyden e da Heidrick &
Struggles (cujo trabalho custará cerca de €100 mil) há nomes repetidos, revela
José Santos Soeiro. E entre eles, “há pessoas que exercem ou já exerceram no
passado este tipo de funções”, acrescenta.
A palavra final será do Governo. O objetivo é “escolher as pessoas e
submeter os seus nomes à CRESAP [a comissão que dá parecer sobre a nomeação de
gestores públicos] até ao final de outubro”, diz o secretário de Estado. “E
ficaríamos muito confortados se vierem a ser escolhidas pessoas da
Administração Pública que já estão a gerir fundos”, admite.
https://www.boyden.pt/portugal/pt/media/8886/governo_recruta_gestores/index.html